Quarta-feira, Maio 23

Xuxa Preta

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Os meus contemporâneos saberão de quem se trata, os mais novos não. Pois bem. Xuxa Preta foi um mito, uma criatura lendária que ninguém sabe se existiu de fato ou foi apenas boato. Mas acabou existindo na imaginação das crianças e adolescentes da década de 1990 e que foi o pesadelo dos professores e diretores de escolas daquela época.
Era uma garota negra, gorda, com feições e trejeitos masculinos, chamada de "trombadinha", Xuxa Preta recebeu esse nome não se sabe por que, já que não tinha nada a ver com a Rainha dos Baixinhos, Xuxa Meneghel. 
    Ainda menor de idade, Xuxa Preta liderou uma revolução em Feira de Santana há uns dez anos atrás. Constituiu uma gangue de delinquentes, meninos e meninas de rua, que armados com canivetes, facas e demais objetos pontiagudos, “invadiam” escolas públicas e particulares na cidade, liderando uma onda violência e pânico entre os estudantes da cidade. Roubavam mochilas, lápis, canetas, o dinheiro do lanche (naquele tempo não tinha celular, tablet e nem notebook), o caderno “da hora” e dizem que quanto mais bonitas as pessoas fossem e se fossem brancas, a Xuxa era mais violenta e no final de cada ataque, marcava um “X” no rosto e ainda cortava os cabelos do povo. Era um terror generalizado!
Lembro-me do dia em que o colégio que eu estudava parou (e eis que essas palavras me saem com um riso nostálgico do meu tempo de infância), e todo mundo saiu das suas salas de aula pelo enorme pátio correndo e procurando um esconderijo, pois Xuxa Preta estava na porta da escola ameaçando invadir. Eu só fazia correr, dar risada e entrar em pânico... Até a Diretora acreditou e chamou a polícia pra ver se acalmava os ânimos. Tanta agonia e medo, que nem tive coragem de ir conhecer a algoz dos estudantes daquela época, nunca vi nem o seu rosto nem o seu rastro. 
Ela invadiu todos os grandes colégios do Bairro do Sobradinho, espancou as meninas da escola lá perto da Rodoviária, bateu nuns garotos na escola da praça, invadiu aquele colégio de freiras e bateu numa irmã, pulou o muro do colégio na Avenida Senhor dos Passos, enfim tocava o terror e depois fugia sem deixar rastros.
Ah, Xuxa Preta, lembrar de você me fez lembrar os tempos de escola! Fico pensando, quanta imaginação a gente tinha quanta união, quanta graça e beleza!
E se tudo o que eu contei aqui é um mito, uma contação de história que foi passando de boca em boca, eu me lembrei dos intervalos em que brincava de telefone sem fio com meus colegas.
Será mesmo que Xuxa Preta existiu um dia? O que terá feito da vida? Estará ainda viva? Seria ela descendente de Lucas da Feira? Por que ela tinha que ser Xuxa, e por que ela tinha que ser negra, gorda, beiçuda e pobre? É, era a nossa descrição dessa garota que causava medo a sociedade da época. Ninguém sabia seu sobrenome, sua origem e história... Só conhecemos o que se reproduziu por aí e que ficou como sendo a verdade.
No caso de Xuxa, a história recebeu uma veia cômica e exagerada graças aos boatos e histórias fora da realidade e que nunca se pôde provar se de fato ocorreram. Mas fico pensando em como a História acaba privilegiando alguns padrões em detrimento de outros. Quantos anti-heróis a história recebeu das sociedades...
E eu não podia ver uma menina gorda, negra e beiçuda na rua, ou dentro do ônibus, de short curto, cabelo curto, crespo e despenteado que eu pensava “Será a Xuxa Preta?” E confesso que até hoje me lembro da imagem que criei dela, aqui na minha cabeça, com suas feições e trejeitos e eu nem sei se ela existiu de verdade.
Baiana, negra, sem direito algum e ironicamente a chamavam de Xuxa, preta.

Estereótipos,estereótipos...Reproduções, reproduções...

Ana Paula Duarte. E em tempos em que estão falando tanto de Xuxa, eis que me lembrei de uma outra Xuxa.

Sexta-feira, Abril 6

Obrigada, Maurício!



    Há exatamente dez anos atrás você recebeu aquele pedido de casamento e disse não como se tivesse negando uma carona. Não porque desdenhasse de quem tanto te queria ao lado, mas por querer insaciavelmente uma liberdade louca e desconhecida de menina cristã cheia de dogmas, mas com tantas dúvidas e revoltas intrínsecas que te atordoavam a mente...
    Você tinha certeza de que nada sabia, e hoje que sabe um pouco mais, já compreendeu que continuará nesta busca, mas já agradece por ter dito aquele não tão rápido como hoje bebe uma dose de Seleta. Você olha para trás e vê que foram poucas as perdas, mas os ganhos foram muito mais significativos. Um salve aquele não de outrora! E viva toda aquela rebeldia que para muitos era "sem causa". Viva todas as ebulições mentais que te fizeram ter posturas tão diferentes do que esperavam muitos! E hoje você sabe que ele não suportaria conviver com este teu ser livre, frenético, desprendido... E viva aquela virgindade pura, aquele medo demente de ter filhos, aquela vontade de conhecer o mundo lá fora. Porque aquele quadrado não comportaria... E ainda que houvesse conforto, não haveria a pessoa que você é hoje. Mais humana do que antes, menos preconceituosa e aceitando-se assim, infantil e comunicativa, bem longe de padrões e de encaixes.
    E se foi um amar gostoso, hoje você guarda na memória como o seu segredo, agora aqui em linhas revelado. Porém, não passa disso... Uma carta guardada na gaveta, uma vez no ano você vai lá e lê, relembrando tanta coisa. Mas logo a coloca de volta na gaveta, é lá o seu lugar. E depois, segue para a vida onde encontra tanta gente e tanta novidade! Respirando fundo com vontade, segue. E, intensa, você aprendeu a absorver tudo, as coisas boas que as pessoas podem te dar e que você aprende. Nada material, mas conteúdo essencial aos seres humanos especiais.
    E você não pensa em casamento agora, não como pensava antes. Porque reflete. Se tivesse dito aquele sim, como seria sua vida hoje? Teria perdido tudo isso que aprendeu e foi constituindo dentro de sua caminhada, isso é fato! Porque hoje você olha para ele e já não o encontra. E ele, se olhar para você, já não encontrará aquela menina. Você não consegue se projetar numa vida comum, não para responder família e sociedade... Só se for por amor, e o amor é livre! Então você suspira aliviada. Escolhas, ah, você já fez tantas e algumas tão loucas, mas, há algumas que eram estrategicamente importantes para a realização de sonhos mais que douro, de uma liberdade indizível e impalpável.
    E hoje você não se sente só, pois nos momentos de solitude você se basta. E nos momentos de multidões se destaca. Hoje, aquele momento com o qual você sempre sonhou chegou e você o aproveita, aderindo novas concepções, leituras e releituras da vida, sonhando novos sonhos, novas esperas e novos deleites. Até novos amigos você fez, contudo, sem esquecer-se de todos os seus amados companheiros de caminhada. A sua fibra se fortaleceu e venceu aquela violência silenciada que tanto lhe doía, você foi ao ápice da denuncia social, da contestação, de si mesma, quebrando os seus tabus, travando batalhas consigo mesma, venceu suas guerras interiores e tornou-se forte.
  Enfim, você chegou a maturidade! Sem tantos amores estilo os clichês mexicanos, sem tantos dramas latentes... Uma frieza que veio com o tempo, mas sem gelar o coração. Uma sabedoria de silenciar, engolir sapos, de conviver e não vomitar suas verdades. Ah, as dores da vida você agradece: mais precisamente aos nãos estratégicos e inesquecíveis.


"É bom olhar pra trás e admirar a vida que soubemos fazer... ♪"




Ana Paula Duarte, a pé até encontrar um caminho, um lugar, pro que eu sou...SEMPRE!
E é nos dias em que o medo pede passagem e nos inunda que podemos abrir caminhos para reavaliações e do próprio caos retirar forças para emegir.
:D




PS: óbviu que Maurício é um nome fictício...

Terça-feira, Março 27

Medo

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Que espécie de dor é esta
Que me aflige a espinha
E que me faz querer retroceder, temer e sofrer?
Medo. De perder algo.
Mas e quando nem se tem, o que é o medo?
O medo de não acontecer
O medo da mediocridade
Da vida comum, do senso comum, do comum
É o medo da incompetência
E de não ter paciência
E não suportar as minhas cobranças.
Medo que paralisa a razão. 
Que o mundo gire,
E que eu fque de fora
Desse conceito que criei
Dessa visão de mundo peculiar
Do que seja vitória e liberdade.
Medo de mim, 
Medo de você e de todo o resto.
Medo de amanhã me olhar e não reconhecer nenhum traço humano,
Num trapo de pessoa rica
Que não é feliz, que não é feliz!
E o medo de ser simplório na pessoa pobre
Que não é feliz, que não é feliz.
O medo da infelicidade!
É este o conceito do pobre
Independendo do meu Lattes.
Vejo as pessoas e suas decisões
Tenho medo da precipitação, 
Gosto de refletir sobre os caminhos e descaminhos
Mas ando me acovardando e tem sido  bem vinda a apatia.
Estou com medo dessa nova vida que se abre.
O que me espera?
Eu nem sei o que espero dela tamanho o medo!
Só não posso me perder de mim.
Ah, plena satisfação pessoal,
Sei que é utopia, mas bem que podia existir!


Ana Paula Duarte, com medo sim!


Quarta-feira, Março 7

8 de março- Dia Internacional da Mulher- Porque estamos comemorando



Em nossa cultura ocidental, é comum deliberar datas para comemorar momentos importantes, homenagear pessoas e fatos históricos. O dia 8 de março é mais que uma data comemorativa, é um dia de luta e de chamamento a todas as pessoas do sexo feminino a pensar e refletir o “ser mulher”. É um dia de repensar comportamentos, ideologias e de rompimento com sistemas arcaicos e opressores.
       O porquê deste dia tão especial está neste conteúdo abaixo, para relembrarmos e valorizarmos as conquistas femininas...Avante!


 História do 8 de março

No Dia 8 de março de 1857, operárias de uma fábrica de tecidos, situada na cidade norte americana de Nova Iorque, fizeram uma grande greve. Ocuparam a fábrica e começaram a reivindicar melhores condições de trabalho, tais como, redução na carga diária de trabalho para dez horas (as fábricas exigiam 16 horas de trabalho diário), equiparação de salários com os homens (as mulheres chegavam a receber até um terço do salário de um homem, para executar o mesmo tipo de trabalho) e tratamento digno dentro do ambiente de trabalho.
A manifestação foi reprimida com total violência. As mulheres foram trancadas dentro da fábrica, que foi incendiada. Aproximadamente 130 tecelãs morreram carbonizadas, num ato totalmente desumano.
Porém, somente no ano de 1910, durante uma conferência na Dinamarca, ficou decidido que o 8 de março passaria a ser o "Dia Internacional da Mulher", em homenagem as mulheres que morreram na fábrica em 1857. Mas somente no ano de 1975, através de um decreto, a data foi oficializada pela ONU (Organização das Nações Unidas).

Objetivo da Data 
Ao ser criada esta data, não se pretendia apenas comemorar. Na maioria dos países, realizam-se conferências, debates e reuniões cujo objetivo é discutir o papel da mulher na sociedade atual. O esforço é para tentar diminuir e, quem sabe um dia terminar, com o preconceito e a desvalorização da mulher. Mesmo com todos os avanços, elas ainda sofrem, em muitos locais, com salários baixos, violência masculina, jornada excessiva de trabalho e desvantagens na carreira profissional. Muito foi conquistado, mas muito ainda há para ser modificado nesta história.


Conquistas das Mulheres Brasileiras 
       Podemos dizer que o dia 24 de fevereiro de 1932 foi um marco na história da mulher brasileira. Nesta data foi instituído o voto feminino. As mulheres conquistavam, depois de muitos anos de reivindicações e discussões, o direito de votar e serem eleitas para cargos no executivo e legislativo.

Marcos das Conquistas das Mulheres na História 

- 1788 - o político e filósofo francês Condorcet reivindica direitos de participação política, emprego e educação para as mulheres.
- 1840 - Lucrécia Mott luta pela igualdade de direitos para mulheres e negros dos Estados Unidos.
- 1859 - surge na Rússia, na cidade de São Petersburgo, um movimento de luta pelos direitos das mulheres.
- 1862 - durante as eleições municipais, as mulheres podem votar pela primeira vez na Suécia.
- 1865 - na Alemanha, Louise Otto, cria a Associação Geral das Mulheres Alemãs.
- 1866 - No Reino Unido, o economista John S. Mill escreve exigindo o direito de voto para as mulheres inglesas
- 1869 - é criada nos Estados Unidos a Associação Nacional para o Sufrágio das Mulheres
- 1870 - Na França, as mulheres passam a ter acesso aos cursos de Medicina.
- 1874 - Criada no Japão a primeira escola normal para moças
- 1878 - Criada na Rússia uma Universidade Feminina
- 1901 – O deputado francês René Viviani defende o direito de voto das mulheres.


E muito mais conquistas foram sendo galgadas durante o século XX e seguimos na luta também no século XXI, há muito ainda o que romper!!

                          Imagem do facebook

Quinta-feira, Fevereiro 23

Colorindo


            Arte em azulejos das ruas do Pelourinho- SSA





Coloridos infindos
Todas as colores

E as dolores dessa vida
Compõem o rico e poético
Mosaico de nossas vidas

Enxergaremos afinal?
Ah, daltonismo pós-moderno,
Que caia a venda e que deslumbrem os raios
Todos bonitos
Infinitos coloridos
Variedades balançando-se

E que enfim percebamos
O quão ricos somos.

A vida é ARTE e só a arte
eterniza a matéria finita.


Ana Paula Duarte. O mais é nada.

Domingo, Janeiro 29

O dia da saudade

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Hoje me disseram que é o Dia da Saudade e logo perguntaram "Do que você sente falta?". Respondi sem titubear que "De muitas coisas, é claro! E lá se tem dia de sentir saudades de ninguém? Oxe!".
Depois fiquei pensando em coisas e pessoas, naquilo que já não volta mais. Senti tanto prazer em lembrar os bons tempos que já tive, das belas pessoas que passaram pela minha vida. Algumas, ainda que boas, já não sinto saudade, já não sinto nada. Outras, a saudade é tamanha que dói e ainda perturba.
Foi então que me perguntei de supetão “quantas pessoas hoje sentiram saudades de mim, afinal quem sente saudades de mim?” E aí a gente acaba expandindo a coisa para outras e tantas reflexões de ações e atitudes, que, com a 'amadurescência' da idade e com as experiências da vida, de forma alguma seriam as mesmas, e eu não me permitiria ter saudades, pois não teria deixado ou perdido. A gente tira muitas pessoas de nossa vida, por insegurança, fofocas, dúvidas, ameaças, medos tolos, morte... Parei de ter pressa, a pressa nos faz perder a naturalidade dos momentos.
        Mas, sabe apesar das perdas o melhor foi perceber que, o dia passou e eu nem me lembrei de sentir saudades, eu só soube dessa "data especial" quando fui questionada. E sabe por quê? Porque eu estava na presença de pessoas que não deixaram em momento algum que eu nutrisse saudades ou falta de nada e nem de ninguém. Eu realmente aproveitei o meu dia. E é estranho, estranhíssimo, pois eu deveria sentir nem que fosse um pouquinho de saudade hoje, não por causa da data, mas por motivos outros. E o  que acaba imperando é a sensação de 'o que se foi se foi...' E que bom isso também!
        É triste quando nos tornamos estranhos de quem antes éramos próximos, mas hoje começo a entender que é natural, pois isso acontece por conta dos caminhos que tomamos na vida, conforme nos direcionamos, nos distanciamos de uns, nos achegamos a outros, mas o importante é nunca estarmos sós.
        Acredito hoje que não há nada no meu passado que me envergonhe e me sinto em paz com ele. E sinto sim aquela saudade mansa e leve frente a tudo o que passou na minha vida. Lembro-me das palavras do compositor Peninha[1] "saudade é melhor do que caminhar vazio". Imaginemos alguém sem lembranças, sem nenhum tipo de recordação, boa ou ruim... Eu particularmente não consigo visualizar. É ser nada, não ter o sentir, não ter uma história e nem aquela nostalgia que nos balança os sentidos e sentimentos, bem, seria entediante e utópico, se tratando de nós humanos.
      Que continuemos a sentir saudades (essa palavra vernácula intraduzível) e até mesmo eleger um dia para ela, mas o que não podemos fazer com as nossas vidas é deixar que a saudade nos engula e nos paralise. Que ela seja então por nós engolida para que possamos viver o agora e inclusive usufruir da nostalgia do depois sempre.  Pois como muito bem poetizou o grande Carpinejar[2] "O que foi já me ensinou, o que virá não sei".

  Ana Paula Duarte

PS: Queridos, depois do texto pronto fui pesquisar um pouco mais sobre este dia e descobri que o Dia da Saudade é dia 30 de janeiro, ou seja, amanhã. Quem me questionou hoje estava meio enganado..Mas, eis o texto!




[1] Aroldo Alves Sobrinho mais conhecido como Peninha, é um cantor e compositor brasileiro
[2] Fabrício Carpi Nejar, ou Fabricio Carpinejar, é um poeta e jornalista brasileiro

Domingo, Janeiro 22

A corda

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Não, não...
Ela já não é mais a tão cantada corda do caranguejo
Agora, a corda pertence ao homem
E é com ela que ele segrega e impera
Ela protege quem pode pagar
Daqueles todos que não podem
E que não tem acesso ao privilégio de ser elite
Será por isso que possuem alta periculosidade?
A corda protetora!
É  mais um instrumento para mostrar
Que nem todo mundo pode ficar dentro da corda
Que a corda tem cor...
Mas, ainda acredito no velho clichê
De que "a alma não tem cor"
A corda também não deveria ter
Nem cor e nem status
E convenhamos,
Fora dela há uma energia monstruosamente[1] linda!
E quem quer se divertir de verdade
Não está muito preocupado com ela.
E uma festa chamada de popular
Deveria deixá-la bem longe de seus foliões,
Pois a simbologia que ela representa
Não cabe para uma festa de tamanha grandeza.




Ana Paula Duarte, e um salve ao Carnaval do Povo sem segregação \o/



[1]  O monstruoso aí para entonar de com força a lindeza que é a pipoca no carnaval, é força monstro, um adjetivo, viu, povo?- Só pra constar! (; )

Quinta-feira, Janeiro 12

Relax, e tudo fica diferente!

     E eu que já quis tantas coisas... Tantos sonhos vãos, tantas águas passaram e os moinhos não foram movidos. Tantas coisas outras foram acontecendo, outras vontades surgindo e o caminho, esquina a esquina, foi curvando e curvando, até que os planejamentos foram sendo esquecidos. 
     Não acredito em vida sem planos, mas a vida, essa sim não está nem aí para eles, é como a criança sentada no batente de um terreiro se deliciando com uma manga, ela lá está preocupada se lambuza ou não? Ela só quer saborear. E o que vem de resto é lucro. E todo o resto é vento, é acaso. 
     E eu que já quis tantas coisas, hoje só quero o sossego essencial de ser humanidade, que peregrina por este planeta e que troca lições com os demais caminhantes sem muito esperar e sem apegos maiores. Isso sim nos livra de enxaquecas e decepções posteriores, isso é internalizar de uma vez o quão divino e imprevisível é ser gente.
    E por mais que existam pessoas desumanas que só estão esperando uma fragilidade qualquer para detonar-me de críticas, eu quero ser que nem criança, que dá um nó nos braços, sorri e lhes dá uma "banana". Aprendamos a dar “banana”, ao invés de gritar ou revidar aos atos cotidianamente desumanos nessa contemporaneidade nude... Eu quero colorir!
      E amanhã, serão outros sonhos, outras gentes, possibilidades e moinhos. Mas no fim, só o amor prevalece e o que me dá alegria em ser humana é justamente poder senti-lo sem medo e sem gelidez.
      E eu queria poder abraçar àquelas pessoas que andam por aí apregoando o mal e dizer-lhes que a vida é muito mais que aquele quadradinho ali, mas prefiro a opção da banana, pois assumo minhas limitações, o orgulho é um fato e sinto que não faria muita diferença. A própria vida se encarrega de mostrar o que vale a pena. E quem é que são os verdadeiros "gigantes" dessa terra.
    Ser escravo da sociedade dói. Buscar a aceitação coletiva é uma utopia que beira a psicose. Não, não... Existem coisas mais importantes! E quem quiser segurar na minha mão e dançar ciranda, não terá do que se arrepender. Nada de tomar a cruz, eu quero é tomar sol!
     E sempre que intento planejar, tudo se desfaz...Mas eu já não choro e nem me faço de pobre vítima, deixo que se desfaçam, abraço o acaso e ele me é bem aconchegante. Não estou temendo me arrepender muito no futuro, de uma coisa sei: posso não ser tão lúcida, porém não costumo ser covarde. 
    E agora caminho lembrando de uma frase que ouvi certa madrugada insone em um seriado: "Enquanto a gente planeja a vida, Deus dá risada." Não deixarei de ter novos sonhos e intentar novos planos, mas, os farei sorrindo e, se nada der certo, continuo sendo gente. 
:D


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Ana Paula Duarte.

Segunda-feira, Dezembro 19

Catárse

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Um dia, tive uma caixa mágica e preciosa, onde guardava a minha maior preciosidade. Abri a caixa para que todos pudessem observar minha riqueza, tudo o que eu tinha estava ali. Decidi compartilhar a caixa, e então, entreguei a chave. Mas, como não foi vista sob a mesma óptica, ela não teve o real valor e foi trancafiada numa masmorra.
Tentei, entre subidas e descidas, escalar a torre e resgatar a minha caixa. Veio chuva, sol e vento e eu não conseguia subir até o topo. Entre recaídas, teimosias e sofrimentos, decido por fim que não subirei sozinha. Pedirei ajuda, necessito! Que me tragam uma escada é melhor que escalada. Vou subir e buscar minha caixa perdida, já nem faço questão da chave, forço o cadeado, disponho das ferramentas necessárias.
O que há dentro dessa caixa? Uma coisinha engenhosa, difícil, lamuriosa e brava, porém cheia de coragem, curiosidades, devoção pelos seus, fidelidade e alegria, espontânea e cheia de vida, a existência minha. Ela vai voltar, ela é de valor incomensurável para mim, afinal, preciso dela para seguir no caminho junto com todos os outros caminhantes que comigo quiserem seguir.
E se ela novamente for colocada numa caixinha e guardada, sei que de algum jeito, ela será novamente retirada. A vida é cíclica!


O fundo do ser (essência) permanece intacto. Buscarei agora o fato de ser (existência), para A PÉ ENCONTRAR UM CAMINHO, UM LUGAR PRO QUE EU SOU... E descobrir que talvez nunca encontre, mas que o interessante da vida é esta busca intensa... Sem vergonha, sem medo, sem mordaças, sem orgulho!


"Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe"
(Oscar Wilde) 

Pensei seriamente que existir fosse mais fácil que viver de fato. Pode até ser, mas eu não conseguiria não me contentaria apenas com isso. 


Vida, essência e existência.



Ana Paula Duarte. Aberta pra balanço, sempre!


*Texto escrito em 14 de janeiro de 2011, com algumas alterações, afinal, alguns conceitos mudaram de lá pra cá e sentimentos também!:D



Sábado, Novembro 19

Frenesi

        É sintomático! E cá estou novamente, entre o delírio das emoções e a distância de uma razão que não quero e que não admito seguir. 
          E como é bom este correr do rio da vida, que nos leva daqui para ali e de lá para cá. E na minha terceira margem do rio, só quero mesmo é experimentar essas besteiras gostosas de bem-querer. E se a correnteza sempre me faz retornar a estas redondezas, é porque aquela incompletude precisa ser preenchida, àquele pertencimento de corpos precisa ser feito. O legal de todo esse jogo de conquista e reconquista é que a vida é mais latente... A gente sente que sempre pode amar e sentir coisas outras! A gente dá e toma banho na chuva de renovação e esquece mesmo de todo o resto. Eu acredito sempre.
Nas margens de mim, eis que me entrego e ao som do desconhecido num crepitar de sentimentos, vou no embalo do querido, pois que tudo o que  importa agora é este sentir tão cheio, este palpitar de coração sangrante, que sempre ama e que ama sempre, sem enxergar mal algum nisso. E não tem nada a ver com a pós- modernidade e a efemeridade das relações e sim  com as oportunidades que a vida nos dá para que revivamos e que sonhemos todos os dias. Para tanto há que se ter coragem e fugir do comunal. Eu tenho e vou! Porque o que me move ainda é o bater forte do coração, aquela falta de ar, aquele esperar... E não me peça pra parar, eu não tenho freios! Não me peça pra não sentir, se eu sou inteira neste querer. 
         Para onde os meus excessos me levarão? Ora, para o mundo da vida, entre descobertas, diversidade, um mundo que não aceita pessoas exitantes e medrosas. O mundo de quem quer viver o tudo e não aceita apenas uma única escolha, uma única verdade, um único amor, um único e último pulsar. E deixa estar este frenesi, sempre é hora de se permitir.

                                                                   Google imagens


"Dentro da felicidade eu estou em casa!"
      Lou Salomé




Ana Paula Duarte, num estado impetuoso.

Segunda-feira, Outubro 31

E a vida é só tudo isso...

      Hoje é um daqueles dias em que o corpo está frágil, a mente está tensa e os nervos à flor da pele. Quero chorar e qualquer coisa me fará chegar às lágrimas! Em dias assim prefiro me meter num casulo. É. Sem paciência, não incomodo ninguém com os meus momentos ímpares de melancolia e me fecho no meu mundinho blasé de dias nublados.
      Todos temos estes dias, não é? Não sei, só sei que comigo quando acontece, tudo acaba sendo motivo para avaliações e reavaliações...Afinal, se temos tudo, por que então estes momentos tão incômodos? Os mais religiosos dirão que falta Deus, outros, que é tudo ilusão e há os céticos que dirão que não há preenchimento de vazios.
      Hoje estive fitando minha avó. Ela tem 85 anos, está velhinha e tem Alzheimer. Chorei muito. É difícil a condição de idoso, e fiquei ali investigando o seu olhar perdido...Em seu silêncio ela me diz tanta coisa! Lembro quando me reclamava tanto na infância, ah, eu sempre fui difícil! E hoje, mesmo ali, sentadinha em sua cadeira de rodas, ela tem tanta vida acumulada, sinto que ela quer permanecer na terra, entre nós, com sua simplória sabedoria de vida, sem precisar ler ou escrever artigos que elucidem e nos norteiem sobre comportamentos e relacionamentos na pós-modernidade...Sem recorrer a um divã, ela é capaz de ensinar tanto! Criou cinco filhos, lutou a vida inteira por sobrevivência, manteve o casamento por mais de cinquenta anos e de fato, o que ela e meu avô esperam agora é que só a morte os separe. Tudo isso apenas sabendo assinar seu nome graças ao Mobral. Não foi exemplo para a mulher moderna, mas nunca foi uma mulher submissa e fraca, sendo uma mulher de verdade em tempos difíceis de sê-la.
       Nossa, como aprendo com ela! E se essa doença hereditária que levou suas irmãs apareceu, vejo minha avó tão bem cuidada, tão amada, tão exemplo que ela deveria ser eterna, para o bem da Humanidade, para o meu bem...Acho que o peso de ser idoso/a deve ser grande sim, pesa porque é tanta experiência e sabedoria, que minha vó agora passou para um outro nível, o nível superior, do silêncio ou daquelas palavras que ela diz e que ninguém mais entende. É como se igualmente aos bebês, que também dotados da sabedoria inocente de quem traz o mistério da vida naqueles monossílabos que achamos tão engraçadinhos, é como se eles falassem a língua dos anjos...Por já terem a pureza de possuírem o amor em sua essência.
     Quais serão os interesses de minha avó, agora? O que ela quererá? Será que quer partir? Terá descoberto o segredo da vida, ou da morte? Tudo o que sei é que ela não tem problemas agora. Mas estará enfadada da vida? Não sei, só sei que tem tanta gente tão jovem e disposto que anda bem pior que ela. 
    São raras as vezes que estou ao seu lado, mas são tão grandiosas e inesquecíveis...Alguém que vale a pena estar junto, ainda que sem razão, ainda que em silêncio. E eu enxugo minhas lágrimas, abro um sorriso e ela me beija mesmo não sabendo quem sou de fato. E logo surgem áquelas palavras indizíveis do reino encantado, palavras inefáveis. E eu me sinto presenteada, eu me sinto feliz, com vontade de beijar este futuro estranho.


'Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar.' Angelus Silésius


Ana Paula Duarte.

Sexta-feira, Outubro 28

Orgulho de ser nordestina? Redundância!

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        Nesta última semana, o polêmico e sempre cheio de irregularidades ENEM, mais uma vez protagonizou e roubou a cena entre as notícias, havendo sérias denúncias de que mais uma vez o gabarito de uma das provas "vazou" e caiu em mãos espertas que logo trataram de lucrar com isso. O fato de um processo seletivo nacional e responsável pela inserção de estudantes na vida acadêmica em várias Universidades do país, principalmente nas Federais não pareceu ser tão importante, foi abafado, relegado em segundo plano e a própria discussão sobre a efetivação e competência desse processo que toda vez que é aplicado é desacreditado e incompetente, não foi feita, portanto, até hoje o ENEM não provou a que veio (e aí assevero uma opinião particular), por acreditar que é mais uma forma de “tapar buracos” na educação, quando na verdade, deveríamos construir um asfalto novo. 
         A opinião pública preferiu fechar os olhos para estas questões tão mais importantes e as pessoas preferiram abrir suas bocarras (entenda-se como quiser a metáfora) para na internet apregoar e proferir (ou digitar) frases e textos com ofensas aos nordestinos. Tudo porque o lugar de onde vieram as denúncias de fraude foi no estado do Ceará,  situado no Nordeste brasileiro, região que, como as demais, demográfica e economicamente participa e abastece este circo chamado Brasil. Quando me refiro ao circo, gosto de lembrar dos mosaicos, de diversidade de cores e origens, da cultura que o circo tem, de sua variedade, acho isso tão lindo! É tão bom quando a gente estuda, lê e se informa, quando a gente contextualiza e interage. Quando a gente não reproduz! A gente é protagonista de nosso ato de pensar... Como é bom não ser alienado, como é bom não incitar a violência. A gente costumar falar mal e abominar o horrível Hitler, mas tantas vezes nos comportamos tal quais suas concepções e preconceitos e saímos divulgando por aí de maneira impensada e irracional.
         Pois bem, começou então a guerra de ofensas entre sulistas e nordestinos, cada um expelindo venenos mortais- os defeitos- do outro. Que azar esse nosso, hein nordestinos?! A prova ter vazado justamente aqui... Deveremos rezar e pedir perdão aos céus por isso? E eu gostaria então, de nos remeter ao ano de 2009, quando a prova vazou em Brasília e uma verdadeira quadrilha profissional se encarregou de espalhar pelo Brasil inteiro os gabaritos da prova, não me lembro da discussão girar em torno da culpa dos brasilienses, nem se questionou a honestidade deles, o que se discutiu foi justamente a organização, a corrupção e o sistema dentro do INEP. Ninguém quis jogar uma bomba atômica em Brasília!
        Olha pessoas brasileiras pensantes, gostaria mesmo que parássemos um momento para uma séria reflexão! O Nordeste não é nenhum coitadinho, não! Aqui tem seca? Tem sim, são questões naturais, de sua geografia, mas tem chuva também, ora! Aqui tem fome? Tem sim, aqui e em várias partes do país! Mas aqui há como conviver e viver bem, aqui, as pessoas trabalham, tem suas possibilidades, estudam, se informam, elegem como lar e formam suas famílias, nós temos uma identidade. Estudem mais sobre nosso povo e nossa região, pois o que está sendo apregoado por aí ao nosso respeito  é resultado de burrice e falta de informação. Saibam que  aqui não é 365 dias de carnaval, praias e são joão, não... Somos isso também, mas vamos muito mais, além disso. Perdoem-nos se nossa economia não movimenta a maioria do PIB nacional, é que sabe, a vida neste país é difícil, o governo está parando de olhar para o nossa região como coitadinho e parando com assistencialismo eleitoreiro aos poucos, e aí as políticas públicas que vão assegurar a melhoria em nossas vidas estão aparecendo na mesma velocidade... Sofremos durante séculos a exploração, afinal, lembram-se né? Aqui nasceu o Brasil, aqui nos libertamos primeiro e aqui continuamos sendo relegados a último plano em diversos governos. E nossas mazelas, retirando as particularidades de nossa região, são iguais ás mazelas sofridas no Rio, São Paulo, Belo Horizonte...E por fim, nós, como povo brasileiro de uma maneira geral, deveríamos pedir perdão, porque honestidade não é bem o nosso forte, não é? Sempre queremos nos dar bem em cima de alguém ou dar aquela "jeitinho" não muito cristão.
      Somos genuinamente um povo miscigenado (olha que paradoxo lindo!) e adoramos isso. Também somos um povo hospitaleiro, que sempre recebe bem, que é religioso, que não é violento nem apregoa a violência. Alguns de nós,  é que estão nervosos com essa série de rótulos que são  pré-estabelecidos aos nordestinos e da forma como uma parcela de pseudo- intelectuais nazistas, que inclusive deveriam se mudar para àquela Alemanha do século passado e nem deveriam ter nascido brasileiros, andam incitando por aí preconceito e muita, mas muita ofensa.
       Aproveitaram-se do momento para externar todo o ódio gratuito, sem fundamento e diabólico que sentem pelos nordestinos. Após esta reflexão necessária, espero que nós paremos de dar atenção a esse tipo de coisa, não vamos incentivar, e nós nordestinos, vamos parar de responder  á tais pataquadas, afinal, sabemos quem somos, sinceramente e historicamente, não precisamos provar nem nos afirmar nem reafirmar nada para ninguém...
 
      
Eu tenho muito orgulho de ser quem sou: baiana, nordestina, BRASILEIRA!


Ana Paula Duarte

Segunda-feira, Outubro 17

O homem e o cadáver


O homem percorria o deserto com rapidez e intrepidez, ele queria chegar ao mar e muito havia de atravessar até que lá chegasse.
Era um caminho difícil, mas como que num oásis em meio ao deserto, companhia encontrou para sua surpreendente jornada. Outro homem no caminho, tão obstinado quanto, também queria chegar até o mar, nunca conhecera o oceano e era um sonho nele se jogar. Mas contratempos no caminho, logo trataram de atrapalhar os amigos, veio a lepra, e o bom amigo acabou desfalecendo em chagas, foi-se ao chão em mazelas, não aguentou a viagem.
O homem, infeliz, sentiu-se vazio e só, e numa tentativa desesperada atirou o corpo do amigo ás suas costas e com ele seguiu pelo deserto em direção ao mar. Assim ele não se sentia sozinho, ao menos lhe sobrava àquela matéria morta que logo se reduziria em lembranças. Passava por aldeias, vilas e cidades, atravessou o deserto com o cadáver a se desmanchar, de dias e dias a putrefar, de longe se podia sentir o cheiro fétido no ar, mas o homem acostumara seu olfato.
A penar pela vida, o homem seguiu pelo caminho do penhasco, a descer entre pedras e aspereza, a se equilibrar com o cadáver nas costas, que já nem pesava, em meio a caatinga seca, onde somente os urubus o seguiram, mas até eles, espantaram-se com tamanha bizarrice.
Voltou para a estrada. Outras pessoas apareceram no caminho, mas o homem, obstinado e cego, sequer notou. E seguia em silêncio o seu “calvário” ridículo em direção ao que já nem se lembrava mais. O mar, já nem sabia por que, mas desencantara.
Chegou então o dia em que parou, olhou para trás e viu o quanto já havia percorrido. O cadáver não mais existia. Olhou para si, tantas eram as feridas, estava apodrecido e já não havia caminho para onde seguir, estava de frente a uma ribanceira, não havia mais tempo, esteve andando em círculos todo o caminho! De longe avistou o mar, onde jamais conseguiu chegar.

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Ana Paula Duarte.

É preciso coragem para viver. Nada contra os círculos, é só que eles são viciantes e não nos permitem olhar além.



Quarta-feira, Outubro 12

Mais uma sobre árvores...

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    O umbuzeiro, ali no meio do sertão de chão rachado e muita poeira, entre folhas verdes-raras. É dele que brota aquele fruto azedo, o umbu, que é tão delicioso e com eles fazemos sucos e até doces que nem de longe lembram um nome científico tão difícil quanto  'Spondias tuberosa'. No tupi guarani, essa árvore era conhecida como  "y-mb-u", que significava "árvore-que-dá-de-beber",  e daí o uso coloquial do termo "imbu" ser utilizado por muita gente no semiárido brasileiro, mais especificamente o baiano. 
    Uma árvore em meio ao 'Grandioso', assim se referiu Ariano Suassuna quando foi caracterizar o aterrorizador SERTÃO, este que nos é tão comum, porém que conhecemos tão pouco. Nos é tão normal encontrar o nude umbuzeiro e sua arredondada copa desfolhada durante a seca, parece estar agonizando, rezando pra Deus naquele sol quente, a clamar pela chuva. Uma árvore. Só isso...E dele mais o que podemos retirar? Lição de vida? Filosofia? Sim e sim! A filosofia da terra, nada de teorias, ou do tecnicismo científico, o que prevalece é o humanamente natural.
     E é no castigado período de seca no semiárido, onde a água é escassa e os problemas se espalham por falta das políticas públicas de convivência com o semiárido, que acentua a grande sensação de abandono, tanto divino quanto humano. E o umbuzeiro permanece ali, firme, feito o povo do sertão, guardando suas forças e conseguindo armazenar em suas raízes grossas e profundas com  mais de 2.000 litros de uma água poderosa, cheia de propriedades e nutrientes, de onde as famílias matam a sede e resistem (ou não), até que a chuva venha (um dia ela sempre vem).
     A chuva lhes garante um pouco mais de dignidade, mas a cada dia com o advento dos problemas ambientais, ela vem diminuindo. E é então que aquela desprezada árvore de fruto agridoce , junto com tantas outras plantas da caatinga, como por exemplo o espinheiro mandacaru, matam a sede do povo sertão fazendo brotar a água de seus compartimentos internos, ali, invisíveis aos olhos. Eu me pergunto : pra que melhor lição de vida que a do umbuzeiro?
     
     É o improvável sempre nos surpreendendo...Um salve ao sertão brasileiro!

Ana Paula Duarte.